Relacionamento abusivo

É muito comum pensar em relacionamento abusivo apenas quando existe violência física. Mas a verdade é que o relacionamento abusivo pode ser de várias formas. Pensei muito se deveria ou não escrever esse texto. Foram dias escrevendo por partes. Editei várias vezes. Para mim, é como abrir uma ferida que vai ser eterna. Ninguém que passa por isso esquece. Mas esse blog é um lugar para compartilhar, ajudar e desabafar. É o lugar em que eu abro o meu coração para amigas e anônimas, que dividimos muito. E quando recebo emails falando sobre alguma coisa que escrevi e como estou ajudando algumas pessoas, fico eternamente grata por compartilhar esse espaço com vocês. Nunca escrevi nem falei sobre isso com ninguém, mas sei que muitas mulheres estiveram ou estão onde estive e acredito que falando que essa situação não acontece apenas com uma pessoa, fica menos difícil para tomar um novo rumo.

Eu vivi um relacionamento abusivo. Talvez, eu não me desse conta do que estava acontecendo na época. A única coisa que eu sabia é que na maioria dos dias eu era infeliz. Não em todos eles, é verdade. Mas na grande maioria. É estranho pensar nisso quando somos novas, bonitas, inteligentes e independentes. Faz parte daquelas coisas que pensamos que nunca vai acontecer conosco, que nunca nos deixaríamos levar por isso.

Conheci esse ex-namorado meses antes de começarmos a namorar. Rapidamente nos tornamos amigos. Muito amigos. Estávamos juntos o tempo todo, em todas as festas, todos os lugares. Ele era o melhor amigo que eu poderia ter: parceiro de verdade, me ouvia, me entendia, dividia o vinho comigo. Um belo dia, nos beijamos e começamos a namorar. No começo, ele era o melhor namorado do mundo: deixava bilhetes com bombons no meu carro enquanto eu trabalhava, mandava flores, pelúcias, me ligava, mandava mensagens e me acompanhava em tudo. Isso deve ter durado 2 meses. Sim, esse pequeno tempo.

Um dia, tivemos uma briga porque eu decidi ir para a academia em um horário diferente. Ele ficou transtornado. Saiu com o carro e quase me atropelou. Fiquei tão perdida que minha memória deletou. Não me lembro exatamente tudo o que ouvi, nem exatamente como começou, só lembro de quase ter sido atropelada e da enxaqueca que fiquei depois. No dia seguinte, ele repetia mil vezes que eu tinha sido culpada. Como eu não me lembrava exatamente do que tinha acontecido, acreditei. Pedi desculpas. E esse namoro nunca mais foi o mesmo.

Fui afastada de todas as minhas amigas. Ele me dizia que eu era tão insuportável que nenhuma delas gostava de mim, que elas riam de mim, fugiam e não queriam a minha companhia. Eu passava tanto tempo desaparecida que tinha vergonha de ligar. E acabava acreditando em todas essas coisas abusivas. Ele tentou me afastar da minha mãe, inventava algumas histórias bizarras, que eu nunca levei em consideração.

Eu ouvia repetidamente que eu era insuportável, feia e que ninguém além dele gostaria de mim, que era um favor que ele me fazia estando comigo. Qualquer coisa que eu falasse, era reprimida com um silêncio sem fim, uma grosseria sem tamanho e alguns atos de violência contra qualquer objeto que estivesse próximo. Foram tantos e incontáveis que não consigo nem listar, embora nenhum tenha sido irrelevante. Em meio a isso tudo, sempre tinha alguns pedidos de desculpas, algumas coisas fofas. Mas na maior parte do tempo a minha vida era um inferno constante. Eu estava absurdamente magra, sem cor e em muitos dias sem vida por dentro.

Lembro dos dias que me sentia perdida, sozinha. De fato, não tinha mais amiga, não tinha com quem conversar. Meus pais se separaram nessa época e eu não queria atormentar com meus problemas. Um dia resolvi terminar. Liguei para todos que eu achava que pudessem me ouvir. Não consegui falar com clareza e tive a impressão de ter sido julgada. Ele voltou a aparecer, conversamos e voltamos. Voltamos a ter um namoro normal durante mais 2 meses. Mas hoje sei que é ilusão acreditar que essas coisas nunca voltam a acontecer.

Um dia fomos em uma festa. Tínhamos chegado há pouco tempo e eu ouvi um assunto que eu não gostei. Pedi para ir embora. Ele disse que eu era louca e me empurrou por trás enquanto eu ia andando para o carro. Caí de boca na areia, ralei meus joelhos e meus braços. Terminei de novo nesse dia. Mas estava perdida, sozinha mesmo. Dessa vez, não procurei ninguém. Fiquei sozinha em meu quarto de paredes brancas. Ele me procurou e novamente jurou (mais uma vez) que mudaria. Voltamos mais um vez. Tivemos um namoro normal por mais uns 6 meses, quando novos abusos começaram a acontecer.

Lembro bem de uma situação em um loja. Era final de ano e eu resolvi sair para comprar vestidos para o Natal e  Ano Novo. Quando saí do provador, dei de cara com ele na porta da loja. Ele entrou, perguntou o que eu estava fazendo lá, fez uma cena e foi embora. A vendedora olhou para mim e perguntou o que aconteceu. Eu fiquei muito constrangida e falei que não tinha entendido. Depois de algumas horas ele foi na minha casa para dizer que tinha ido para comprar um presente para mim, mas que como eu estraguei a surpresa, não teria “direito” a presente de Natal. Como se isso importasse depois do que eu tinha acabado de passar. Foram quase 10 dias de silêncio, acusações e dias infernais.

Eu era ofendida o tempo todo. Ele me rebaixava e eu vivia sozinha. Em um final de semana, fomos viajar para um lugar com amigos dele (até porque eu não tinha mais nenhum). Lembro apenas das ofensas. Resolvi passar o fim de semana bebendo e dormindo. Conversei apenas com uma das amigas (dele, óbvio), e falei somente o necessário para ter sanidade mental para sair de lá. Jurei para mim que preferia passar o resto da vida sozinha do que nessa infelicidade que eu vivia. Chegando aqui, terminamos.

Fiquei alguns dias na casa da minha vó, em outra cidade. Procurei as minhas amigas. Todas elas estavam namorando. E eu decidi que sairia apenas com os casais, para não correr o risco de encontrar ninguém. Me dediquei ao trabalho e à faculdade (mesmo com vergonha de todos os amigos de lá). Percebi que eu tinha vida além daquela insanidade que eu vivia. Mas fugia de todo mundo que se aproximava. Não queria nada nem ninguém que não me tratasse como prioridade. Dois meses depois, em meio aos casais, conheci meu marido. Não sabia no que ia dar, apenas deixei as coisas acontecerem. Nos casamos pouco mais de dois anos depois.

Depois de passar por tudo isso, vi como algumas amigas lindas e inteligentes também viveram relacionamentos abusivos e destrutivos. Todas elas tiveram a sorte de sair de sair dessa situação. Alguns tiveram sequelas graves que ficarão pelo resto da vida. Evito pensar no quanto teria sido infeliz se tivesse permanecido nessa situação. Esses relacionamentos começam com uma pessoa que encanta e depois transforma a nossa vida em um inferno. Se você está em um relacionamento assim, saiba que não importa a situação, você merece muito mais do que isso, qualquer um merece. Não aceite menos do que felicidade. Sabemos que em um relacionamento nem todos os dias são flores, mas educação, cordialidade e respeito são básicos para qualquer início de conversa.

Liz é publicitária, empresária e mãe da Maria Eduarda. Ama blog, decoração, viagens, reciclagem e festas. Apaixonada pelo marido e pelo Johnny Boy, o baby de 4 patas.